Manual (nada) prático para a maternidade

Tem que ser livre demanda, mas tem que ter rotina para dormir. Tem que ser criação com apego, mas não pode dormir ninando. Nem no peito, mas não esquece que é livre demanda.
Tem que amar a amamentação mas lembra da pega correta, de oferecer o peito em mais de uma posição. Tenta dar amor e se conectar com a criança enquanto arruma a boca de peixinho, segura a almofada de amamentação, abre a boca, puxa o queixo, enfia o peito na boca. Mas lembra do amor.
Tem que ensinar a dormir sozinho, mas não pode deixar chorando no berço. Aliás, não pode ter berço. Tem que ser cama compartilhada, mas tem que aprender a dormir sozinho. Sem chupeta, claro. E sem peito também.
O colchão tem que ser no chão. Não importa se você gosta da sua cama e do seu quarto do jeito que ele é. Não pode ter travesseiro e nem coberta perto. Vai passar frio e dormir torta.
Tem que respeitar a exterogestação, o amadurecimento do sono, mas tem que estimular. Com brinquedos montessorianos, se não vira um ser sem autonomia e sei lá mais o quê. Não pode tv, não pode ipad, não pode brinquedo com luz e de plástico. Tem que ser tudo feito em casa, de madeira, papel-machê e educativo. Tem que estar disponível a hora que quer, para brincar, dormir, mamar. Não pode delegar a criação para a tv, para o computador, a babá.
Tem que voltar a trabalhar, vai ficar sendo sustentada pelo marido? Mas não pode ir pra creche, coitado, dá um dó. Não pode babá também, tá louca, ficar com uma estranha? E com a avó fica mimado. Mas vai ficar em casa? Sabia, teve filho para ser sustentada. Voltou a trabalhar e nem pensou na criança.
Tem que dar o peito quando quer (menos pra dormir, lembra) e até quando quiser. Mesmo com as costas doendo e sem dormir há 10 anos. Quando for comer, tem que ser orgânico, natural e BLW. Tem que fazer cosplay de Bela Gil e ver a criança mandar para os ares a comida que você, que detesta cozinhar, levou 3 horas para fazer. Porque tem que deixar comer do jeito que quiser e jogar pedaço de melancia até embaixo da estante. Você não ficou em casa para cuidar dele? Então, na hora que ele dorme você cata resto de cenoura (orgânica) pela casa. Mas fica com o marido? Coitado. Tá fazendo a parte dele de cuidar dessa criança pra você trabalhar, ainda quer que cozinhe e limpe a casa.
Tem que ser fralda de pano, mas não pode deixar assar a bunda. Troca de duas em duas horas. Lembra que nesse tempo pode querer mamar. Ou brincar. Ou dormir. E a melancia ainda tá embaixo da estante. E os brinquedos montessorianos espalhados pela sala.
Tem que criar um ser com autonomia vivendo em função dele. Tem que criar com apego mas cercada de sim e nãos.
Tem que ditar regra para deixar a maternidade ainda mais difícil do que ela já é.

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Para a mãe que acabou de nascer

Nasceu. E a sensação é de vazio.
Tudo bem se você não amar no primeiro instante (ou nas próximas semanas). Vocês vão se conhecer aos poucos.
Busque alguém que te apóie na amamentação. É difícil, pode doer. Você precisa de apoio.
Precisa de apoio nas noites mal dormidas, ou não dormidas. Na hora do choro do bebê e do seu choro também.
Chore.
Coloque pra fora a angústia, os medos, o desespero, a agonia, a tristeza.
Um bebê nasceu, mas morreu uma mulher. É tudo bem se você quiser vivenciar esse luto.
Cobram tanto a alegria desse momento que pode ser que você se sinta culpada por não estar radiante. E tudo bem.
Não receba visitas, se não quiser.
Ou se cerque de amigos, se sentir melhor acompanhada.
Não ligue para o que os outros falam, sobre você, seu parto, seu bebê.
Pode xingar todo mundo, bater portas, mandar a merda.
Você acabou de morrer e colocar uma vida no mundo.
Chore muito.
Aprenda a delegar.
Você não é menos mãe porque deixou de trocar uma fralda, ou porque quis dormir e deixou o bebê com alguém, ou porque não teve paciência para acalmar aquele choro.
Aliás, repita mil vezes que qualquer escolha sua não te faz menos mãe e que você é a melhor mãe que seu filho poderia ter,
Você ainda é um ser humano com vontades próprias, sentimentos próprios, emoções e caprichos. Você pode, sim, se colocar em primeiro lugar. Até porque seu filho precisa de uma mãe inteira, saudável e feliz para cuidar dele.
A maternidade não tem que ser essa vida de sacrificio e renúncias que falam para a gente.
Lembre-se que bebês choram, por tudo, por qualquer motivo, ou sem motivo também. Não é culpa sua, do seu leite, do chocolate que você comeu, ou qualquer outra coisa que inventam para jogar nas suas costas a responsabilidade.
Acredite que “vai passar”. Aquela cólica, a dor no mamilo, a falta de sono.

Eu estou escrevendo esse texto no fim do meu puerpério, porque não quero esquecer como foi difícil. Pode ser que isso aconteça e eu seja uma das pessoas que esteja te falando qualquer porcaria que não ajude no futuro. Então se eu puder dizer algo que valha realmente a pena para você é:

Chore. Você é a melhor mãe que seu filho poderia ter. Vai passar.

Carta para Aurora – 3 Meses

23/02/2017

“Neblina baixa, sol que racha”
Me disseram isso quando falei como estava difícil esses primeiros meses. Quer dizer que nos dias que amanhece com neblina, logo em seguida virá um sol brilhante. E nesse mês esse raio de sol começou a se fazer ver.
De um dia para o outro parece que as coisas ficaram mais fáceis. Talvez seja o puerpério acabando, talvez seja você se entendendo comigo e com o mundo, talvez seja porque eu estou confiando mais em mim e em você.
Nos últimos dias você passou a interagir mais. Fica mais tempo acordada, brinca, tenta pegar as coisas e conversar comigo. Aliás, não senti alegria maior na minha vida do que nos momentos em que você me olha atentamente, sorri e tenta falar. É um conforto tão grande na alma.
Agora finalmente sinto que consigo te confortar. Acho que entendi como você gosta de ser segurada, o ritmo do balanço. Ultimamente consigo te fazer dormir só cantando e te ninando, e você parece preferir minha voz do que o ruído branco que costumávamos colocar. Tem vezes que você chora e basta me ver para abrir um sorriso. E tem vezes que seu pai está tentando te acalmar e basta passar para o meu colo para você parar.
Que delícia que é, filha, ver que eu basto e sou o que você quer e precisa, e que em mim você encontra aconchego e paz. Isso me fez acreditar mais em mim e ter forças para seguir com as escolhas que eu e seu pai fizemos para sua criação.
A amamentação ainda não é perfeita, mas seguimos do nosso jeitinho. Já vejo que meu peito é mais do que alimento para você.
O mundo não parece mais um lugar tão desconfortável para você e até parece que você está curtindo esse contato com as pessoas e os lugares. Ás vezes vejo você interagindo e me dá uma tristeza de te ver crescer e realizar que daqui um tempo vai ser preciso mais do que meu colo para te deixar feliz e que nem sempre eu vou poder estar do seu lado te protegendo.
Mas tento afastar rápido esses pensamentos e acreditar que estamos fazendo o melhor para te preparar para esse mundão. Você já está se saindo super bem até agora e eu estou muito orgulhosa disso.

Carta para Aurora – 2 Meses

23/01/2017

Eu achei que seu primeiro mês era uma sensação de estar saindo de uma tsunami. Mal sabia que vinha outra em seguida.
Você agora parece entender que tem um mundo do lado de fora, e quer interagir com ele. Ás vezes solta um sorriso, mas sinto que na maior parte do tempo isso te angustia. E eu estou aqui, tentando amparar suas angustias, frustrações, cansaço, mas sem saber se estou fazendo certo.
Quantas dúvidas, filha. Quantos comentários que machucam. Pessoas que parecem me olhar e me questionar a todo momento se eu realmente sei ser boa mãe. E aí eu acabo me questionando se sou boa mãe, outros dias me questiono se sou mãe mesmo. Você me olha, mas ainda não me reconhece como seu porto-seguro, e aí eu acho que é porque eu não estou fazendo alguma coisa certo.
Me disseram que é normal, que você está se entendendo com o mundo, com você, comigo, e que meu papel é só estar aqui. Mas te ver chorar corta a alma. Eu só queria ser realmente aquele lugar de segurança e aconchego que disseram que eu seria.
Sinto que estamos caminhando em uma neblina e não consigo ver se está realmente melhorando. A amamentação tem mais dias bons que ruins, mas ainda tem momentos que quero desistir. Não tenho mais medo de você estar com fome porque está tudo certo com seu peso. Fisicamente você aparenta estar bem.
Mas e por dentro? Por que tanto choro sem motivo? Ou tem motivo e eu que não consigo ver?
Parece que você me pede algo e eu não sei o que é.
Mais uma vez sinto que preciso te pedir desculpas.

Carta para Aurora – 1 Mês

23/12/2016

Você, enfim, chegou. Seu parto foi uma tsunami que passou por mim e esse mês eu me senti assim: sabe quando você toma um caldo de uma onda sem esperar? Quando você volta para a superfície e tem aquele sentimento de medo-alívio-desespero-tranquilidade-euforia-falta-de-ar?
É tudo tão esquisito, filha. Porque eu não sei mais quem eu sou. Não sei também quem você é. E você também tentando se descobrir, me descobrir e descobrir o mundo.
Admito que foi frustrante. Me falaram que você teria necessidade de estar perto de mim, que eu seria seu conforto e acalento. Mas eu te peguei no colo tantas vezes e não consegui te entender ou te confortar. Você me olha como se eu fosse uma estranha. O que é engraçado porque estávamos juntas há 10 meses, mas você só conhecia o meu avesso.
Falando em avesso, tá tudo de pernas pro ar. A casa, a vida, o sono, eu. Não me reconheço mais. Eu sou uma estranha para mim mesma.
Esse primeiro mês doeu, filha. Doeu o corpo voltando do parto, doeu a alma ao te ver chorar e não saber o que fazer, doeu o seio avermelhado, doeu o medo de não estar te nutrindo, doeu a consciência nas noites em que passei você para o seu pai ou sua avó porque eu não sabia mais o que fazer.
Queria ter tido mais paciência, mais segurança, mais calma. Seu pai e sua avó ajudam muito, mas a presença deles meio que impede que fiquemos só nós duas. Acho que deveriamos ter chorado juntas para, assim, nos reconciliarmos.
Eu termino esse mês sentindo que faltou pedir desculpas, filha. Por não saber o que estou fazendo, por talvez não estar tentando tanto quanto eu deveria.

Não me chame de forte ou corajosa

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Me sinto meio incomodada cada vez que alguém diz que eu fui forte, ou corajosa, por ter tido um parto natural. Sinto isso porque parece que me colocam em uma categoria a parte de mulheres, aquelas que pariram, e que isso só foi possível graças a uma qualidade individual minha (ser forte, ou ser corajosa).
Eu não fui mais forte ou corajosa do que qualquer outra mulher. Eu só fui bem informada e bem apoiada. A força e a coragem já estavam aqui, eu só precisei de informação suficiente para resgatá-las e de apoio suficiente para acreditar nelas.
Eu queria deixar claro para outras mulheres que parir é muito mais fácil do que fizeram a gente acreditar. Que não é preciso ser alguém muito especial para isso. É da nossa natureza, é do que somos feitas. É simples, orgânico, fisiológico.
Imprevistos acontecem, emergências também, graças a Deus temos a medicina e suas intervenções para lidar com essas casos. Mas a maioria, a grande maioria das mulheres, é capaz de parir sem ajuda. E foi isso que tiraram de nós e nos fizeram acreditar: que nosso corpo é defeituoso, falho ou incapaz, que o parto é algo para poucas escolhidas.
E por quê? Por que qual seria o interesse desse sistema machista e patriarcal em ter mulheres que soubessem quão forte é o corpo delas? E se todas mulheres percebessem que ninguém nasce sem a gente (que coisa né, tão óbvio)? Não é interessante para o sistema que a gente passe a acreditar em nós mesmas, é muito conveniente que a gente ache que quem salva é o médico, que somos espectadoras de um processo que é inteiramente nosso.
Aliás, também nos fazem ver que a intervenção é porque nosso corpo falhou (você não tem dilatação, sua bacia é muito estreita) e não porque imprevistos acontecem. Precisar de intervenção, quando essa é realmente necessaria, não faz ninguém mais ou menos incopetente.
Eu me senti orgulhosa do parto que tive e proporcionei para minha filha. Não porque me acho a mulher mais forte e corajosa que já existiu, mas por ter conseguido desafiar um sistema que coloca as mulheres como seres frágeis e incapazes. Nós criamos a vida, nós conseguimos colocá-la no mundo.
Então, meninas, moças e mulheres, se informem! Aprendam quais são as etapas do trabalho de parto, quais são as reais indicações de intervenção (ocitocina, cesárea, etc), para não cair na conversa de médico fofinho que só quer te cortar para ganhar o feriado (médico é gente, e gente pode ser bem perversa e interesseira). E procurem uma equipe e um acompanhante que te apóie. Não crie expectativas para o seu parto.

Somos todas fortes e corajosas só por sermos mulheres.

Relato de parto – Nascimento da Aurora (parte 03)

EXPULSIVO

Água quente. Alívio momentâneo.

2
Mais força. Mais palavras de incentivo. Mas a minha sensação é que a bichinha está entalada, não vai sair nunca.
Alguém diz para ligar para a pediatra e mandar ela vir de verdade, agora sem tranquilidade. Bom sinal. Deve estar acabando.
Lembro de ter dado risada de alguma coisa. Lembro da Betina me dizer para sentir a cabecinha dela. Lembro de dizerem que é cabeluda.
(Detalhe: achei que tudo isso tinha acontecido na banheira, mas aconteceu quando estava deitada na cama. Só descobri vendo o vídeo depois).
Muita força, mas parece que não sai.Betina me lembra que a cada contração o bebê desce 2 milimetros. Não vai sair nunca, tá entalada. Chego a pensar que alguém poderia me ajudar, um fórceps, vácuo-extrator, sei lá, não lembro se cheguei a pedir.

1
Abro olho e tem 4 mulheres na minha frente. Acho que foi a cena mais bonita do parto, porque tive essa lucidez. Foi fundamental vê-las, sentir essa energia feminina.
Levanta as pernas na hora do puxo. Inspira fundo e faz força comprida. Isso. Tá ótimo. Mas parece que nada acontece.
Betina sugere para eu ficar de cócoras. Vem a contração. Sinto a cabeça dela descer. Muda a dor. Arde, arde muito, arde que parece que eu vou rasgar no meio. Alguém diz: “olha o epi-no aí!”. Sinto medo. Por mim parava por aqui. Murilo me segura, me olha no olho, digo que não vou conseguir e ele diz que vou sim.

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Fico de pé e alivio. Nasceu, graças a Deus!
“Faz força, Camila, tá quase”
Como tá quase? E esse alivio? Não nasceu?
Olho embaixo das minhas pernas e a cabecinha dela tá ali. Mas não sai o resto! Espera a contração e vai.
Mais força.
Agora sim, nasceu.
Chegou no meu colo sei lá como. Já estou sentada na banheira de novo e Aurora no meu braço. Quente. Cheia de vérnix. Olhos fechados. Quieta.
“Benvinda, filha. A gente conseguiu!”

3

Não chorou, nem respirou por 10 minutos. Cordão pulsando.
Pergunto para a pediatra se está tudo bem e ela me diz que só bebê da Globo que nasce chorando.Uma hora boceja e Betina diz que nunca viu bebê que nasce bocejando.
10 minutos depois, resmunga. Choro baixinho e tímido. Vai de roxo para rosa, respira sozinha, enfim.
Não lembro se placenta tinha saído já, ou se saiu depois. Mas saiu super fácil. Grande, quente, vermelha, achei linda. Celine (ou Betina, não lembro) perguntou se eu queria comer, mas não senti necessidade. Nem um pedacinho? Nem.

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Murilo corta o cordão que já não pulsava e pega a bebê. Saio da banheira para ir para a cama e PLOFT.

Até sonhei.

Acordo e Celine e Betina estão comigo. Eu desmaiei no corredor, mas jurava que tinha só dormido. Parir cansa.
Ficamos no quarto namorando a criaturinha que fazia um barulhinho engraçado, tipo um “é,é,é” que ela faz até hoje. Chegou perto do meu mamilo, abocanhou e dormiu. Nascer cansa também.

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Os gatos espalhados pela cama, a equipe conversando e rindo, Murilo do meu lado, Aurora no meu colo, tudo do jeito que tinha que ser.

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Uma palavra que resume o parto: intensidade.
Uma palavra que resume esse dia: realização.

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De informações técnicas: Aurora nasceu à 01:05 da manhã. Comecei a sentir as dores mais ou menos às 18 horas, então foram aproximadamente 7 horas de trabalho de parto. Nasceu com 52 centimetros e 3,680 quilos.
Não tive nenhuma laceração, períneo integro (viva o Epi.no!).
Foi com certeza a experiência mais intensa da minha vida, um verdadeiro rito de passagem. Das dores resta apenas uma memória da força dos puxos na hora do expulsivo, o que sobra na alma é amor e realização.

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Nossa equipe querida: Cris (fotógrafa), Betina (obstetra), Silvia (pediatra) e Celine (doula)