Nosso relato de amamentação

6 meses, meio ano, de amamentação exclusiva e em livre demanda. Cumprimos nossa meta.
Nossa não, minha.
A maternidade tem vários desafios e em todos aprendo um pouco mais sobre mim, ou desconstruo coisas. Entre todos eles, a amamentação foi o que mais me desafiou e mais me ensinou.
Diferente da grande maioria das mulheres, eu estudei sobre amamentação durante a gravidez. Li, reli, grifei e marquei páginas do Manual Pratico do Aleitamento Materno do Carlos Gonzalez, sabia tudo sobre pega correta, posições, livre demanda e etc. O que eu não sabia é que sendo uma pessoa extremamente técnica, meu aprendizado seria o contrário.
Aurora não mamou quando nasceu. Estava cansada, só abocanhou o mamilo e dormiu. Nossa neoanatologista disse que ela poderia não querer mamar no primeiro dia e que seria bom não insistir para não ferir meu seio, que ela viria nos orientar depois de 24 horas. Quando ela veio, nos ensinou a pega e as posições, Aurora mamou, o seio ardeu um pouquinho e a médica nos orientou a arrumar a pega que estava errada, para não machucar. E aí começou meu inferno.

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Nosso primeiro encontro, alguns minutos ou horas depois que nascemos

 

Eu a via mamando e sabia que estava errado. A boca não estava suficientemente aberta, ela só abocanhava o mamilo, não fazia lábio de peixinho virado para fora e fazia barulho, estralando a língua. Eu tirava ela do seio e tentava arrumar, ela chorava, pegava errado de novo, eu arrumava, ela se irritava, eu me irritava vendo ela mamar errado. O seio começou a doer, resolvi tentar outras posições, não dava, era desconfortável. Murilo me ajudava com as mil almofadas e a criança berrando de fome.Cada mamada era uma briga e eu queria desistir. Pedia toda vez para o Murilo ligar para a pediatra perguntando qual leite artificial a gente poderia dar, porque eu não queria mais. Ela mamava e terminava satisfeita, eu recobrava minhas forças e jurava que iriamos só até os 6 meses.

 

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Nosso segundo encontro

 

Quase uma semana depois do parto, nossa doula veio nos visitar. Viu Aurora mamando, reparou que a pega estava meio errada mesmo, mas me perguntou como eu estava, se estava doendo ou não. Parei para pensar e, realmente, não sentia dor. Apesar da pega errada, meu peito não tinha ferido, só estava assado. Celine então disse que o que estava faltando para mim era confiar e que era hora de deixar de ser tão clássica, e começar a improvisar, ser mais contemporânea.
Não levei isso a sério. Fui em grupos de amamentação e acabei ainda mais neurótica porque disseram que Aurora mamava pouco. Que era pequena demais para as mamadas estarem tão espaçadas e curtas, que ela deveria mamar de 3 em 3 horas nem que eu tivesse que acordá-la. Outras mães diziam que seus bebês mamavam por 40 minutos ou mais, Aurora não ficava nem 10 minutos. Meu nervoso só aumentava, e o stress das mamadas também.

 

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Na neurose de querer arrumar a pega, eu vivia tirando fotos para ver se ela estava correta 

 

Perdi as contas de quantas vezes chorei. Sentia medo dela acordar e ter que dar o peito, sentia pena de ficar acordando ela, me sentia fracassada. Depois de ter tido um parto dos meus sonhos, estar falhando tanto em prover o alimento da minha filha me desmotivava, me deprimia. Pensava do que adiantava ter parido naturalmente, se eu era incapaz de amamentar e se ela era incapaz de aprender? Por mais que eu corrigisse a pega, ela não mudava e isso me irritava profundamente. Eram momentos de raiva e frustração, nada de amor, nada de contato, isso me entristecia profundamente. Sentia uma dor na alma.

 

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Um dia falei com a Camila Apocalipse (do blog Devaneios Maternos) e ela me disse que a pega correta nem sempre é igual para todas as mães e bebês. Pediu para eu observar uma série de coisas: peso, se estava me machucando, se ela parecida satisfeita depois de mamar. E me disse de novo: confia, tá tudo certo.
Depois da primeira consulta com a pediatra, vimos que Aurora não só tinha recuperado o peso que perdeu depois de nascer, como ainda tinha ganho. Ou seja, ela estava se alimentando e engordando. O coração deu uma aliviada, ela estava mamando certo, por mais que não parecesse.A pediatra mandou ainda esquecer isso de horário, de acordar a bebê, que estava tudo bem, tudo certo, só era preciso confiar.
Decidi então escutar as minhas duas doulas e a médica, era hora de esquecer a técnica e confiar.
Pluguei a criança no peito e comecei a sentir. Não doía. Fazia uns barulhos esquisitos, a boca não estava certa, mas não doía. Mamou, mamou, soltou e dormiu. “Bebê que não mama o suficiente, reclama”, lembrei da Camila me falando naquela conversa que tivemos. Está tudo bem estamos fazendo tudo certo.
Esqueci a técnica, esqueci a pega, esqueci as posições, os horários, deixei ela mamar, do jeito que ela queria e sabia, do jeito que eu podia oferecer. E assim chegamos, 6 meses de amamentação exclusiva, com pega errada e sem peito ferido ou machucado, com Aurora gordinha e satisfeita, só mamando no peito direito sabe-se lá por quê mas se é isso que ela quer, vamos lá, com volta ao trabalho, ordenha e oferta de leite no copinho de pinga. Sem bicos artificiais, sem leite artifical. Sem técnica, que é para a bailarina clássica aprender a improvisar.

 

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Nas madrugadas infinitas

 

Em uma outra consulta com a pediatra eu disse que não sabia quando ela queria mamar, que eu oferecia o tempo todo e via quando ela pegava, que não sabia se nosso jeito era o jeito correto e ela me disse: “Camila, não sei como vc está fazendo, mas continua do seu jeito que tá tudo indo bem”.
Sei que nossa história não é a ideal, eu nunca recomendaria a uma mãe que esquecesse a técnica, a pega e tudo mais. Mas essa é a nossa história. Minha e dela. Eu que tenho gravado embaixo do coração que “o que em mim sente, está pensando”, precisei aprender a sentir mais e pensar menos, e só assim pude fornecer alimento para o corpo e para a alma da minha filha.

 

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Chegamos na nossa meta. A meta agora é não colocar meta e quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta.
Obrigada ao meu companheiro da vida toda, Murilo, por não ter me deixado desisitir de verdade, nunca ter ido comprar mamadeira e leite quando eu pedia, e ter confiado em mim, de novo e sempre. Ás minhas doulas Celine e Camila, pelas palavras de incentivo que ficaram gravadas no coração. A nossa pediatra Silvia Maia, pela orientação.
Conseguimos, consegui.

 

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2 comentários sobre “Nosso relato de amamentação

  1. Camila ❤ ❤
    Acho que não está de tudo errado essa coisa de esquecer a técnica. Ela serve como guia, mas não é regra. Ano passado fiz um curso de consultoria em aleitamento e uma coisa que discutimos muito foi que não existe a pega correta, mas sim a pega ideal. E se tem uma coisa que vivenciar a maternidade tem me ensinado, é que a realidade é bem distante do ideal.
    A força ta na gente. Mas a gente não é ensinada a reconhecer essa força, a acreditar no nosso corpo, no nosso instinto.
    Cada história é uma história. Cada maternagem é uma maternagem. Não existe perfeição, existe o possível e acredite: você é a melhor mãe que a Aurora poderia ter.
    Emocionada e feliz por vocês Cá. Que vocês sigam nessa dança de improvisos, altos e baixos… nessa dança que é só de vocês!

    Obrigada por me permitir participar e por confiar em mim. Que honra ser chamada de doula ❤

    E parabéns para vocês, pela história, pelos seis meses e por todos os outros que ainda virão!

  2. Republicou isso em Devaneios Maternose comentado:
    Se tem uma coisa que eu sempre gostei de ler foi relato de outras mães. Seja de gestação, parto, amamentação, puerpério… Não importa! Relatos são sempre uma fonte de força e inspiração e claro, nos ajudam a lembrar que não estamos sozinhas e que nossas dificuldades, muitas vezes, são as mesmas de outras mulheres! Por isso sempre que encontro um relato que me toca, compartilho por aqui.
    Hoje compartilho um bem especial. É um relato de amamentação. Mas a mulher que conta essa história é uma amiga, o que deixa tudo ainda mais especial.
    Espero que vocês gostem!
    E Camila, gratidão por partilhar essa história comigo e permitir que eu compartilhasse ela aqui.

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