Frozen e o conto de fada do século XXI

Desde o século XVII as crianças crescem ouvindo contos de fadas. Nossos pais o fizeram em livros, nós nas antigas fitas cassete e nossos filhos em dvd e blu-ray. A impressão que passa é que essas histórias são atemporais e eternas, pois tratam de temas universais. Tornaram-se verdadeiros mitos modernos, na definição de Roland Barthes, para quem o mito é o esvaziamento moral, cultural, social e estético de certo objeto ou evento, a fim de torná-lo “neutro” ou “natural”.
Diferente do que pensamos, o conto de fada possui uma ideologia, e maioria dos contos que crescemos ouvindo traz essencialmente uma moral aristocrática e burguesa. Eles só foram mitificados ideologicamente, tirados de sua história e despolitizados para representar interesses de classes dominantes. No caso aqui vou focar no papel servil da mulher, sempre apresentada nessas histórias como uma princesa indefesa e passiva. Tantas histórias no qual a mulher deve apenas esperar pela salvação, que vem em forma de um homem todo poderoso.

No entanto, estamos presenciando recentemente a reescrita de certos contos que já possuem uma moral um pouco mais atualizada com o século XXI. Acredito que tenha começado discretamente com o filme “Enrolados” (Tangled), uma releitura mais moderna de Rapunzel, e atingido uma maior obviedade no maravilhoso “Valente” (Brave). Ambos os filmes trazem heroínas mais independentes, que vão atrás de seus objetivos e distorcem de certa forma a concepção da princesa passiva.


O ápice da mudança desse padrão veio com o filme Frozen. Qual foi a minha surpresa ao ver uma história de princesas, mas sob uma ótica mais psicológica e atualizada.
Eu que amo contos de fadas, psicanálise e feminismo, encontrei nesse desenho um prato cheio para uma análise interessante. Segue alguns pontos que me chamaram a atenção:

1 – O PODER NA MÃO DAS MULHERES
Em Frozen, contamos com duas protagonistas: as irmãs Anna e Elsa. Ambas são princesas do reino de Arandelle, e Elsa, a mais velha, é a próxima na linha de sucessão. Diferente das histórias tradicionais, na qual as princesas só assumem o poder ao se casarem com um príncipe, mesmo já sendo pertencentes à aristocracia, Elsa é coroada rainha já no começo do filme.

2 – FIM DO AMOR ROMÂNTICO
Presença constante nas versões de contos de fadas da Disney: príncipe e princesa se apaixonam após uma mera troca de olhares. Sem se conhecerem, sem trocarem uma palavra, basta olhar um para o outro para saberem que são almas gêmeas.
Em Frozen, esse amor é satirizado. Anna, a princesa mais nova, busca encontrar um amor romântico (talvez tenha crescido ouvindo esses contos de fadas e idealize com eles) e na festa de coroação de sua irmã, acaba se “apaixonando” por Hans, um jovem príncipe, que a pede em casamento no mesmo dia. Ao contar para a irmã mais velha, a reação é: “Você vai se casar com alguém que acabou de conhecer?”. Frase, aliás, repetida várias vezes na história, por diferentes personagens.
O amor que se desenrola, com outro personagem, é o amor da convivência, ao ir se conhecendo aos poucos e construindo coisas em comuns. Mais legal ainda é ver Anna dividida entre dois homens, mas com nenhuma conotação pejorativa, ou seja, não há julgamento de moral por ela estar gostando de dois ao mesmo tempo.

3 – THE SELF-MADE WOMAN
Diferente dos tradicionais contos no qual a princesa é uma personagem quadrada que não evolui, apenas espera a hora em que os eventos se desenrolam a seu favor, Frozen traz como tema central o desenvolvimento pessoal e amadurecimento das personagens.
Elsa possuí poderes mágicos que transforma coisas em gelo, e esse poder tende a se descontrolar em momentos de nervoso e medo. Ao atingir a irmã no começo do filme, seus pais dizem que deve esconder seus poderes para não machucar ninguém. Em termos psicanalíticos, podemos pensar nos poderes de Elsa como seus medos e traumas inconscientes e que ela busca recalcá-los ao invés de entendê-los e aprender a conviver com eles. A sua busca durante a história é ou recalcando, ou extravasando, mas sempre se isolando do mundo pois não consegue lidar com ambos ao mesmo tempo.


Elsa finalmente livre para descobrir seus poderes, mais isolada do mundo (e Idina Menzel quebrando tudo na música vencedora do Oscar)

Anna também possui uma cruzada pessoal: atingida no coração pelo poder da irmã, ela deve encontrar um ato de amor verdadeiro para não ser congelada para sempre. Criada no imaginário romântico, acredita que um beijo de amor verdadeiro poderá salvá-la. Mais tarde irá descobrir que o ato deve partir de si e não de alguém, ela deve ser a sua própria salvadora, e não esperar a salvação de fora.

4 – O VILÃO INTERNO
Frozen não tem grandes vilões, responsáveis pelo nó da trama. Nada de bruxas más, madrastas ou monstros. O clímax da história é o confronto de Elsa e Anna, e delas com elas mesmas.
A história conta com antagonistas, que servem como empecilhos, mas não são responsáveis pelos grandes problemas a serem resolvidos.
Elsa, para lidar com seus poderes, é orientada a “não sentir”, ou seja, recalcar suas emoções profundas. O vilão da história habita dentro da própria heroína.

5 – A REDENÇÃO PESSOAL E O OUTRO
Anna completa sua maldição e termina congelada, mas antes disso tenta salvar a irmã de ser assassinada. Seu ato de amor verdadeiro acaba se concretizando. Esse ato parte de si para o outro, e ela é a própria responsável por sua salvação.
Diante desse ato, Elsa compreende que só estando próxima do amor da irmã, é que pode viver em paz consigo e com seus poderes. A convivência com a alteridade faz com que aprenda a controlar seus medos.
Diferentes das histórias tradicionais, na qual a salvação da heroína é realizada pelo elemento externo, o príncipe; em Frozen, a salvação de ambas parte de uma alteridade, mas se resolve no âmbito pessoal. È convivendo com o outro que elas aprendem a conviver consigo mesmas, sem depender de ninguém.

O mais bonito de Frozen é a construção de personagens aprendendo a lidar consigo mesmas e com o mundo. São duas meninas que aprendem com o amor de uma para a outra, sem a dependência do idealizado amor romântico e da salvação masculina, um verdadeiro avanço no que diz respeito à representação feminina nos contos de fadas.
Frozen não traz apenas uma visão mais atualizada do amor e da figura feminina, é um belíssimo filme sobre auto-conhecimento, um conto de fada psicológico e sensível ao século XXI.

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