Bravo!

Minha vez de tentar falar umas palavras bonitas pra gente mais bonita ainda.
Não sei quando foi que eu decidi que dançar era o que eu devia fazer pelo resto da vida. Acho que por que eu nunca decidi isso. Um dia me perguntaram “por que você dança?” e eu respondi “porque eu sempre dancei”. A dança me definiu como pessoa, definiu meu gosto musical, minha segunda língua estrangeira, meu jeito de andar….Camila é bailarina, e ponto.
Todo mundo pensa no ballet como uma arte aristocrática, e em sua origem ele é. Pensa no ballet romântico, na bailarina etérea, nas pontinhas leves e delicadas. Quem vive o ballet sabe que não é assim, sabe que em sala de aula estamos mais pra treinamento de guerra do que pra escola de princesas. Sabe das dores, das pressões internas e externas. Isso vem na técnica do ballet, e isso fica em sala de aula, porque no palco devemos ser leves.

“Só a bailarina que não tem…”

Para além disso, quem decide (ou quem a dança adotou como filho, mesmo que a gente não tenha decidido nada) viver de ballet ainda tem mais pressões para lidar. Tem que correr atrás de empregos escassos, lidar com a informalidade do meio, viver de bicos, de salários baixos, de oportunidades vazias e de instabilidade. Viver de arte é díficil, todo mundo diz.
E apesar das dores, apesar do dinheiro curto, apesar de todos apesares que seria viver de ballet…eu fui. Eu chorei, pensei em desistir mil vezes, pensei com medo…porque eu não queria desistir. Eu não poderia fazer outra coisa, mesmo porque eu acho que não sei fazer outra coisa.
Mas cada lágrima que eu derramava por causa de um salário que não era pago no fim do mês, vinha um abraço de uma aluna de 3 anos. Para cada medo de não ter como pagar as contas, vinha uma menina que estava parada há 10 anos e criou coragem de subir no palco de novo. E eu encontrava motivação pra continuar.
“Amor não enche barriga”, me diziam, “ninguém leva arte a sério”.


Até que um dia recebi uma mensagem no face, de uma das bailarinas mais lindas que já vi dançar. Eu a admirava desde que fazíamos aulas juntas e eu acabava de entrar na faculdade, perdida em São Paulo, sem saber do que seria da minha vida de bailarina. Quando tudo e todos me mandavam desistir da dança, ela, sem saber, era meu exemplo de força e delicadeza dançando, mais que isso, era meu exemplo de mulher: decidida, independente, bailarina acima de tudo. Eu olhava para ela como quem olha para uma irmã mais velha e pensa “quando crescer quero ser que nem a Thaís”.
E essa mesma Thaís me disse que abria uma escola de ballet, e queria que eu desse aulas lá. No começo já via que era diferente, gente, até parece emprego de verdade. Nas primeiras reuniões, seriedade, mas muito amor, “aqui não vai ser escolinha de ballet”, foi o que ela e as outras diretoras, Ana e Anna, me disseram. Foi a frase mais linda que eu ouvi.
A Bravo! Ballet nasceu grande. Nasceu com salas cheias já na primeira semana. Nasceu com nomes como dona Neyde Rossi e Mariângela D’Andrea, bailarinas renomadas. E eu, perdida lá no meio, decidi que tinha que merecer por estar lá. Tentei absorver o máximo desses mestres, fiz tantas aulas, voltei pra Royal, grudei naquela que virou não só minha mentora mas minha amiga Denise Nardi, aprendi e ensinei.
Essa semana foi nosso primeiro espetáculo. Foi nosso primeiro fruto de menos de um ano de trabalho. E eu conquistei mais uma alegria que a dança me deu: eu dancei, feliz e realizada com meu trabalho de bailarina, eu assisti minhas alunas pisarem no palco pela primeira vez na vida, ou pela primeira vez depois de anos longe. Eu finalmente fechei a caixinha que estava aberta desde meus 18 anos e que dizia “ninguém leva a arte a sério”.


Que a Bravo! continue crescendo. Que sejamos esse oásis no meio da secura da arte em São Paulo. Que eu consiga ser uma professora no nível dessa escola que já é sucesso porque está sobre uma base de respeito à dança e ao seu ensino.
Às minhas diretoras Thaís, Anna Rita e Ana Yazle, um obrigado do tamanho do meu amor pela dança. Aos meu colegas professores, meu respeito e admiração eternos. E aos meus queridos alunos, que a dança continue fazendo parte de quem vocês são, como faz parte de quem eu sou.

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