Elogio à gordura

 

Assunto polêmico, delicado e provavelmente serei apedrejada com barras de suflair, mas ok.
Que a nossa sociedade valoriza a magreza, não é novidade. Que há uma exaltação do físico magro, da Gisele Bündchen, do abdome-tanquinho, todo mundo sabe. Mas recentemente percebo, principalmente entre a galera meio-intelectual meio-de-esquerda, um movimento contrário, percebo um elogio à gordura.
E pipocam com manteiga na minha timeline textos de meio intelectuais meio mozzarella exaltando a barriguinha de chope, a celulite, a mulher com sobrinhas no biquíni. Todo mundo exaltando os quilos a mais, a cerveja no final e durante a semana, o “verdadeiro corpo brasileiro”.
E posso dizer que eu agora comecei a me sentir oprimida?
Sempre fui magra. Tive várias fases de magreza: a de ruim (quando era criança comia até o reboco da parede e não engordava), a de anoréxica (na adolescência, por motivos tão diversos, cismei que não deveria comer pra não engordar) e a de agora que tenho um corpo de mulher me encho de neura mas não estou acima do peso. De qualquer forma, conheço a relação complicada que tenho com meu corpo, sei que mesmo não sendo gorda sou vítima da ditadura da magreza que nossa sociedade impõe, mas ainda assim não vou exaltar a gordura.
Por quê? Porque eu acho que exaltar o ser gordo é tão ruim quanto exaltar o ser magro.


Assim como magreza excessiva é doença, gordura também é; e, por favor, isso não é novidade. Não adianta ficar exaltando a barriga de chopp quando sabemos que gordura acarreta em mil problemas de saúde e pode sim te matar.
Outra que o movimento vem caminhando numa direção que estão crucificando aqueles que decidem emagrecer ou cuidar do seu corpo. Sim, da mesma forma que crucificaram os que não querem emagrecer, o movimento está partindo na direção contrária!
Já ouvi mil coisas na vida de magra: “ah você é magra mas duvido que é feliz”, “o que adianta esse corpão se não pode comer?”, “homem gosta é de lugar pra pegar”, “homem gosta de barriguinha pra aconchegar e não de tábua de passar”. Sério, pode parecer #classemagrasofre, mas é tão opressor quanto mandar uma menina fechar a boca porque tá gorda.

Percebo também uma distorção do argumento “se amar como você é”, como se isso quisesse dizer “faz o que tu queres pois é tudo da lei”. Já vi gente dizendo que ama ser gordo, que está se aceitando como é e usando isso como desculpa para comer fritura e doce todo dia.  Acontece que isso é exatamente o mesmo argumento que um anoréxico usa: que se ama e que vai se cuidar e por isso não vai comer nada. Se amar é cuidar do seu corpo com carinho e ver como ele responde com saúde: mantendo o peso, ou emagrecendo, ou deixando uma gordurinha aqui ou ali.

O que acho que falta é respeito e o que tem que acabar é o julgamento do corpo do outro. É isso que traz sofrimento, o olhar externo de alguém que te avalia, que te condena e que te oprime por ser quem você é.
Você tem que se amar e isso é o que eu mais desejo pra toda e qualquer pessoa: a realização de se olhar no espelho e gostar do que vê. Seja gordo, magro ou aquele corpo que é metade um e metade outro. Não vale a pena ser magro a custas de sofrimento, de odiar sua imagem, de passar fome e se privar da vida. Não vale a pena ser gordo e viver na cama, ter que tomar mil remédios ou não conseguir fazer as coisas que você gosta.

Cuidar do corpo também não é viver na neura (e eu preciso aprender disso). É fazer escolhas saudáveis, de alimentação, de estilo de vida. Não é contar calorias, mas é querer que seu coração funcione adequadamente e seus órgãos tenham energia e limpeza para funcionar do jeito que deveriam.
Uma amiga linda me escreveu isso um dia e eu copiei em vários lugares pra levar pra vida:

“Nosso corpo sempre vai responder com disposição e leveza se estivermos conscientes do que estamos colocando pra dentro (…) A gente come não para moldar o corpo físico externo, mas para harmonizar nossas energias físicas, e fazer o melhor com a nossa própria existência, e o processo é muito mais importante e valioso do que qualquer resultado.”

 

Um comentário sobre “Elogio à gordura

  1. Cá, vc disse tudo! Também já sofri por causa da minha imagem, por causa do peso que a balança mostrava. E já me maltratei e me puni, me sentindo feia, e engordei, pq parecia que eu tinha que ser feia e gordinha e me sentir mal como “castigo”. Os nossos desequilíbrios vira e mexe refletem no nosso corpo e na nossa saúde. Quando estamos bem, é mais fácil equilibrar a dieta, os horários das refeições e todo o resto. Quando nossa vida tá desorganizada, fica tudo bagunçado. Eu vejo claramente isso também no meu guarda-roupa! haha… adorei o texto! Beijos!

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