O Paradoxo Hugo Weaving*

Há mais ou menos 2 anos escrevi um trabalho para conclusão de uma matéria na faculdade no qual analisei o filme Matrix sob uma perspectiva sociológica, principalmente educacional (a matéria era da licenciatura).

Basicamente tratei nesse trabalho de como o filme aborda a noção de sujeito pós-moderno, sua constituição numa perspectiva do sociológo francês Michel Foucault, no qual o indivíduo é fruto de uma relação de poderes. Digo em um trecho do meu ensaio:

“Em uma das primeiras simulações de Neo dentro da Matrix, Morfeu lhe mosta a mulher de vermelho, que logo em seguida se metamorfoseia em um agente do sistema. Com a frase “Dentro da Matrix, eles são todos e não são ninguém”, Morfeu sintetiza a condição dos humanos submetidos a um sistema que não só os aliena e despersonifica, mas os neutraliza” (GEROTO, Camila)

Eu interpretei essa cena do filme tendo em vista o que o Foucault diz em seu conjunto de aulas “Em defesa da sociedade”:

“o poder transita pelos indivíduos, não se aplica a eles (…) o poder transita pelo indivíduo que ele constituiu” (FOUCAULT, Michel)

Ou seja, ao mesmo tempo que o individuo é submetido ao poder, ele também pode exercê-lo, de maneira que todo e qualquer sujeito na sociedade é também parte do instrumento de regulação do sistema. Em termos de lei, por exemplo, diria que não é preciso ter uma polícia em cada residência, que cada sujeito conhecedor da lei e do modus operanti da sociedade, sabe atuar como regulamentador.

Basicamente: todo mundo está sempre pronto para virar um Agente Smith


Nos últimos dias circulou pela internet o seguinte aviso:

Galera que vai participar da manifestação… Segue uma ideia baseada nas manifestações na Argentina: Quando os vândalos começavam a quebrar tudo lá, os verdadeiros manifestantes se sentavam, assim facilitava a ação da policia para reprimir e prender os culpados por esses tipos de ações mesquinhas. Podemos usar isso como ação na nossa manifestação, pois queremos uma cidade melhor e não uma cidade destruída.”

Sempre que fui à manifestações senti que havia um laço que me ligava a todos aqueles desconhecidos que marchavam ao meu lado, nos chamando de “companheiros” por estarmos em uma causa comum. Agora, nessa marcha da família com Deus pela liberdade ou seguimos o padrão FIFA ordeiro-moral-e-bons-costumes, ou somos denunciados pelos companheiros e companheiras que deveriam estar marchando POR UM PROPÓSITO EM COMUM.

Pessoas, chegamos no ponto, com máscaras inspiradas (ou copiadas) da HQ V de Vingança de Alan Moore, na qual o personagem principal, anarquista, quer explodir o parlamento inglês e acabar com a ditadura que oprimia o país.

EXPLODIR-O-PARLAMENTO

A única anarquia permitida aqui é a de ideologias em prol de uma máscara da hora

Vestido com sua máscara revolucionária, o manifestante vai munido de ideias (a prova de balas!) e de um dedo pronto e certeiro para denunciar o colega que não condiz com seu padrão adequado de protesto da paz e de bem. Denunciar para o mesma sistema que o oprime e o faz oprimir.

Oi, incoerência, um beijo.

E cada dia que se passa nessa cidade insana, eu só acho que uma nuvem miraculosa vai se abrir no céu e Foucault vai aparecer resplandecendo a careca e gritando:

EU AVISEI!!!!!

Agora cabe a você decidir, cidadão: pílula azul ou vermelha? Vai ser V de Vingança ou Agente Smith nessa história?

* Título do post: Hugo Weaving é o ator que interpreta, PASMEM, V de Vingança e o Agente Smith em Matrix.

2 comentários sobre “O Paradoxo Hugo Weaving*

  1. Quer dizer que na sua opinião, aqueles que denunciam ladrões e oportunistas que se mezclam aos outros protestantes e cometem atos de vandalismo/roubo deveriam sair impunes, simplesmente porque fazem parte do “povo”?. E reprimir crimes é função desse governo corrupto e tudo que vem dele é errado? Portanto pelo seu raciocínio o governo deve cair e a anarquia imperar. Reprimir ou condenar crimes é algo que só pode vir de fascistas, e assim criminosos podem fazer o que bem entenderem?

    E eu inocentemente acreditava até agora que os protestos eram para melhorar o país, e não para derrubar o governo e criar um estado sem lei ou segurança ainda pior que o anterior.

    Entenda que não é uma questão de trair os companheiros de causa porque eles não são ordeiros e leais, é denunciar aqueles que se aproveitam de uma cituação que os mascara para cometer crimes que são tão condenáveis hoje como eram antes dos protestos e manifestações começarem, e continuarão sendo o día em que terminarem. Existe uma grande diferença entre denunciar alguém que está depredando um vehículo e a realidade fascista de V de Vingança, 1984, ou até mesmo as ditaturas reais, em que o pensamento livre é condenado e não se pode confiar nem no vizinho. Mesmo que você se julgue (ou pelo menos simpatize com a causa) anarquista, seja filosófica ou revolucionária, deve com certeza entender que o bom senso é o limitador natural pelo qual o individuo deve se guiar. E baseado nesse bom senso eu pergunto, como você agiria se sua casa ou bens estivessem sendo roubados ou destruídos por outros? Eles não estariam violando seus direitos individuais? Você os deixaria impunes?

    • Em nenhum momento falei que sou a favor do anarquismo. O que constatei é uma falta de coerência ideológica dos que estão saindo pras ruas hoje, valendo-se de um símbolo anarquista para fins totalmente opostos.
      Só estou ilustrando com um exemplo atual uma teoria do Foucault das massas como instumento de regulação.

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