Sobre o ensino de ballet clássico

Faz tempo que eu queria falar sobre o ensino de ballet clássico no Brasil. Estando imersa nesse mundo desde sempre, vi muita coisa que me assustou, entristeceu e revoltou. São Paulo é uma cidade com 11 milhões de habitantes e é possível contar nos dedos das mãos as boas escolas de ballet clássico. O ensino de dança, no geral, não é nada levado a sério, mas o ensino de ballet consege ser um dos mais sucateados: professores mal-formados, escolas sem estrutura pedagógica e física, alunos que saem das aulas machucados e sem formação técnica adequada, enfim, uma bola de neve gigantesca que eu vou tentar analisar em 3 pontos.

– O ALUNO
Hoje em dia é muito comum encontrar pessoas que querem fazer ballet e não serem bailarinos profissionais, e isso é ótimo! O ballet é uma super atividade física, além de todo aspecto artístico. Acontece que muitas vezes esse aluno que busca as aulas sem compromisso profissional, acaba achando que, por isso mesmo, não precisa de toda a exigência do aluno que está tendo a formação profissionalizante. Ledo engano: a técnica do ballet é exigente e é a sua boa execução que vai assegurar o aproveitamento total das aulas e o menor risco de lesões. Ou seja, não importa se você não quer ser primeira-bailarina do Bolshoi, você tem que fazer aulas como se quisesse. E não estou falando de virtuosidade (pernas altas, mil piruetas), mas de cuidado e limpeza técnica.
Para isso o aluno tem que ter um bom profissional o orientando, e bons profissionais devem ser bem remunerados, certo? Aí muitas vezes o aluno acha “injusto” pagar determinado valor para um profissional renomado. Resultado: acaba caindo em qualquer academiazinha de esquina, no qual não vai receber a orientação adequada, e vai acabar se machucando ou nem sabendo que não está dançando ballet. Sim, porque pouca gente dança ballet. É só assistir espetáculos de final de ano de qualquer escola e você vê muita gente achando que dança ballet, mas não dança. E dançar ballet não é subir nas pontas ou colocar a perna na orelha, é dominar a técnica. Virtuosidade é outra história.

Isso, por exemplo, não é ballet:

– O “PROFESSOR”
Coloquei entre aspas porque existem dois tipos de professores de ballet: os professores, e os wannabe-professores.
O primeiro tipo é aquele que estudou de verdade. Completou a graduação como bailarino ou como professor de ballet, estudou metodologia de ensino, faz cursos de atualização, etc. Enfim, tem uma formação adequada. Acaba errando quando encontra o aluno citado acima, que acha absurdo pagar “caro” por uma “aulinha de ballet”. Esse profissional, sem se dar valor e sem reconhecer os anos e dinheiros investidos na sua formação, acaba abaixando seu preço (todo mundo precisa sobreviver, né?). Acaba contribuindo para a sua própria desvalorização e desvalorização da dança.
Nisso também entram diretores de escola, que muitas vezes são professores de dança. Quando passam pro lado administrativo, se esquecem dos anos que tiveram que batalhar pra conseguir ganha 1 hora/aula e remuneram seus professores muito mal, desmerecendo o trabalho deles (sim, estamos num sistema capitalista, logo dinheiro = valorização.Dói mas é verdade).
O segundo tipo, os wannabe-professores, não são professores. São estudantes de ballet, gente que fez algumas aulas na vida, e acabaram caindo numa sala de aula. Nunca se graduaram, nunca estudaram metodologia de ensino, enfim, são amadores. Não entendem o propósito de cada passo e não sabem dizer qual o conteúdo programático de um 1º ou 8º grau. Observo que tem dois motivos para existir gente assim atuando na dança:
1º – Mau-caratismo (fazer o que?)
2º – Gente que continua pagando péssimos profissionais.
E aí entra o aluno mão-de-vaca de novo. Sem querer pagar muito por um professor competente, paga pouco por um sem qualquer formação. Chega na escola sem se preocupar com a formação que o professor teve, se tem certificados, onde e com quem estudou.

Nas palavras de Enico Ceccheti, codificador do método italiano de ballet:

“Há centenas de, pseudo professores, poucos dos quais distinguem-se, de fato, na arte de ensinar. Existem bons teóricos que são incapazes de demonstrações práticas; similarmente, há os que demonstram de forma excelente, mas desconhecem os princípios teóricos de sua arte (…) Finalmente, há na dança, como em todas as profissões, impostores e charlatões cuja única qualificação é um conhecimento superficial de termos técnicos dos quais não entende o significado (…)”

– A FISCALIZAÇÃO
Falar desse item é falar de um mundo abstrato que não existe. Não existe fiscalização em dança. Temos sindicatos que deveriam servir pra isso, mas não servem.
Se os alunos não exigem qualidade, e os “profissionais” não se profissionalizam, era preciso que uma entidade externa fizesse o papel de separar joio do trigo.Infelizmente, não temos. Assim o ensino de ballet segue, em sua grande maioria, conduzido por amadores e sendo estudado de maneira errada.

Onde isso vai dar? Não sei, tenho medo. A técnica do ballet chegou onde está por causa de séculos de estudo, Deus sabe onde esse amadorismo vai levá-la. Mas ao mesmo tempo, conheço e presencio gente que está envolvida tentando mudar essa realidade. Não é fácil remar contra maré, mas como boa “meio intelectual meio de esquerda” (como diz Antonio Prata), eu acredito numa revolução e sei que ela começa aos poucos.

2 comentários sobre “Sobre o ensino de ballet clássico

  1. Consciência corporal !!! acho que isso é o que falta para a maioria do professores amadores, como vc diz Ca! Como podem propor um trabalho corporal sem conhecer o corpo?

  2. concordo com tudo, e uma coisa que fico meio assim tb é aula de ballet duas vezes por semana… pra mim tinha que ser todo dia em qualquer escola, poxa. mas tento entender que é uma opção do aluno, que vai poder escolher se quer todo dia ou não. o problema é que as vezes ele demora a ter essa consciência… como foi comigo. snif.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s