39 semanas

39 semanas.
Bateu um desespero (e quando não bate?), por um momento achei que você nunca mais iria querer sair de mim.
Na minha cabeça iríamos até as 37 semanas, 38 no máximo. No final do oitavo mês tudo estava tão intenso e dolorido, de repente calmaria. Nada acontece. Não sai tampão, não vem contração, nada, você se mexe confortável aqui dentro, parece que está bem.
Eu sou apressada, dinâmica, ansiosa. E você de novo vem me mostrar que a gestação não se dá no calendário. O que querem dizer 39 semanas para você? Absolutamente nada. O tempo cronometrado não faz parte do útero.
Em um momento de lucidez eu percebo o privilégio que é ter você aqui dentro. Confortável, feliz, nutrida, protegida. Sentir você mexendo, sentir seus solucinhos que eu tanto gosto.
E poder garantir um parto no seu tempo e do seu jeito. Sua saúde está ótima, a minha também. Então vamos ficar aqui unidas e esperar juntinhas. Quantas mulheres não queriam poder chegar nas 39, 40 ou 42 semanas? Quantos bebês não foram tirados antes da hora?
Me sinto privilegiada por poder garantir isso a você. Vem no seu tempo, filha. Você já entende muito mais disso do que eu.

É como uma montanha russa…

8 meses na fila que serpenteia embaixo do sol. Quando entramos estamos empolgados, observamos as pessoas que andam no brinquedo e o frio na barriga é de excitação. A fila demora, muito, dá tempo de começar a se questionar: será que o grito daquelas pessoas que já estão lá em cima não é de desespero ao invés de animação? Olhando de fora, de baixo para cima, o percurso parece longo. Ás vezes empolgante, ás vezes assustador. É tão alto. Será que eu vou mesmo? Mas a fila já andou tempo demais para sair dela. Você alterna momentos de coragem animada com outros de covardia desesperada, mas não se entrega. Entra no carrinho, afivela o cinto e a subida começa.
Aquilo que antes estava distante se materializa, a descida está cada vez mais próxima, a gravidade se faz sentir. O frio na barriga agora é de incerteza. Ao chegar no topo, o carrinho para….
37 semanas. A termo. A qualquer momento esse carrinho vai despencar. Os segundos lá em cima, encarando a ladeira enorme que se encontra a frente, parecem eternos. Dá tempo de pensar, de se arrepender, de tentar entender: por que cargas d’água eu resolvi me meter nisso? Onde eu estava com a cabeça?
O carrinho vai descer a qualquer momento, a gente lembra dos gritos das pessoas que já passaram por isso. O frio na barriga agora é de medo. Mas não dá para sair mais, a qualquer momento a descida começa, esperemos…

Meu útero sabe das coisas

Precisei de 7 meses para começar a entender o que a minha médica e todo mundo dizia: gravidez é perder o controle.
No primeiro trimestre, com o medo dos abortos espontâneos, só ouvia que nada poderia fazer. Que se tivesse que ser, seria. E ouvia repetidamente: “desencana, gravidez é isso, perder o controle”.
Antes encarava isso de uma maneira negativa. Quase como se uma fatalidade iminente pudesse me assolar a qualquer momento e eu só pudesse acompanhar, passiva, o desfecho.
Mas só hoje, no terceiro trimestre, que comecei a perceber que isso não é algo negativo. Pelo contrário, isso mostra a força interna que tenho em mim.
Durante esses 7 meses meu útero, meu sistema endócrino e todo o resto do meu corpo se orquestraram para manter essa vida crescendo dentro de mim. Ao meu lado racional e voluntário coube cuidar da alimentação e da saúde, ou seja, não colocar problemas em um sistema que já foi programado para funcionar.
Sem que eu me desse conta ou me esforçasse voluntariamente, tudo dentro de mim se ajeitou perfeitamente bem. Nutrindo, protegendo e ajudando o pequeno embrião que se instalara. E percebi então que isso é perder o controle: é deixar a natureza fazer aquilo que ela sabe.
Seria muito ingênua de achar que é sempre assim, e não existem problemas. Se a intervenção fosse necessária, ela aconteceria. Mas até então meu corpo está mandando muito bem nessa história de gestação. Meu útero sabe das coisas.
Ele criou um meio perfeito para essa pessoa crescer aqui e se desenvolver, e é ele quem me deu a melhor lição para eu me preparar para o parto. Sem nunca ter feito isso antes, soube crescer uma vida. Não será capaz então de colocar essa vida no mundo, sem qualquer intervenção também?
Hoje realizei, orgulhosa, o poder do meu útero, do meu corpo. Ele já fez tanto!
Tenho uma força interna que não sabia que existia e começo a acreditar cada vez mais nela. Meu corpo está sendo maravilhoso na criação de uma vida e tem tudo para ser maravilhoso na hora do parto.
Penso em como minha filha confia, sem saber, nesse meu poder. Talvez eu deva aprender com ela que, desde o primeiro segundo de sua vida embrionária, acreditou em mim e na minha capacidade de gestar. Aurora sabe que não tem controle, então simplesmente confia. Eu devo fazer o mesmo.
E penso nisso para afastar o medo de um parto natural: minha filha confia plenamente na minha capacidade de parir. Aliás, ela nem sonha com outra hipótese que não seja nascer naturalmente. Ela que se posiciona naturalmente na saída, que se acalma nas contrações de treinamento, ela que sabe que vamos nascer assim, porque não há outro jeito.
Obrigada por confiar em mim a cada dia, filha. Desde o começo vc teve mais fé no meu corpo do que eu mesma.
E, útero, amigo, você sabe das coisas. Você é foda, cara.

SEGUNDO TRIMESTRE

Todo mundo já sabe.
“Se você for como eu, vai engordar muito”
“Se você for como eu, não vai engordar”
“Faz parto normal, dói na hora e depois não sente nada”
“Faz cesárea, não dói nada e só sente depois”
“É menino, você tem cara de mãe de menino”
“É menina, Murilo tem cara de pai de menina”
14 semanas e estou esperando a magia acontecer. Já comi todas mexericas, tomates, limões e bolachas de água e sal do mundo. Não era para os enjoos terem passado? E o cansaço acabado? A barriga aparecido? E por que eu tenho que ficar cuspindo o tempo todo feito uma lhama?
Ultrassom morfológico. Parece ser menino. Já tem mão, pé, dedos, nariz. Um coração que bate disparado. Tudo isso aqui dentro e não sinto nada além desse mal-estar constante.
Ainda tenho medo. Mas está tudo bem.
Bolinhas estouram na barriga uma tarde. Penso que são gases. Repete no dia seguinte. Deve ser o bebê.
Acordei um dia e não tinha mais enjoo. Então é assim mesmo que funciona.
Segundo ultrassom. Parece ser menina.
Hora de pensar no parto. A médica me pergunta se já pensei em parto domiciliar ou se quero mesmo no hospital.
Claro que vai ser no hospital, se eu pedir anestesia jurem por Deus que vocês vão dar, não ligo se precisar de ocitocina, quanto mais médico melhor, enfermeira também, e balão de oxigênio, dá um medo que nasça roxo.
Ela me olha tranquila e só diz “Tá certo, começamos em casa e depois a gente vê”.
Fiz o Murilo jurar que se eu pedisse para ir para o hospital e tomar anestesia, todo mundo iria sem me questionar. Ele me olhou com a mesma cara da médica.
Terceiro ultrassom. É menina mesmo. É Aurora, sempre foi, só faltava se materializar.
Visita ao hospital, mas poderia ser visita a um hotel cinco estrelas. Tenho que escolher entre foto, vídeo e transmissão online do parto. Se quero só uma cama ou se quero uma suíte com varanda e máquina da Nespresso. Sei que ganha touca rosa e bordada mas não sei se tem chuveiro de água quente na sala. Vejo os bebês no berçário mamando um peito invisível, longe da mãe.
Saio de lá decidida.
“Vai nascer em casa”
Murilo e a médica trocam olhares cúmplices.

Menos julgamento, mais abraço

Eu ainda não sou mãe “de verdade”. Sou mãe de barriga. Ou estou me tornando mãe.
Mas desde que me descobri grávida venho pesando e pensando em cada atitude e decisão minha. Estudando, lendo, fazendo escolhas. Tudo desejando o melhor para minha bebê.
Tudo sem ter a menor certeza se estou acertando, mas com a melhor das intenções.
E tenho certeza absoluta que você, que é mãe, mãe de verdade, também.
Pode ser que algumas escolhas minhas não sejam iguais às suas. Mas isso deveria nos colocar uma contra a outra? Como eu disse, eu não faço a menor ideia se estou fazendo certo, mas estou tentando. E você também. Por que não podemos simplesmente nos apoiar?
Se você acha que fralda descartável é melhor e mais prática, e eu vou tentar usar fralda de pano, isso não me faz mais santa amiga da natureza do que você, só faz com que tenhamos escolhas diferentes.
A sociedade já nos separa de tantas maneira, fazendo acreditar que toda mulher é uma concorrente e inimiga. Na maternidade deveríamos nos unir ainda mais. Trocar o palpite pelo ombro amigo, o julgamento pelo encorajamento, o “eu avisei” pelo abraço.
Não tenho experiência nenhuma, mas sou uma boa ouvinte. Então se quiser desabafar sobre ter decidido parar de amamentar, sobre não ter tido um parto normal, sobre o dia que levantou a voz para a cria, eu vou te ouvir. E vou me esforçar ao máximo para não te julgar e me enxergar em você, e te dar um abraço e tentar te dizer que tudo bem. Que você é ainda a melhor mãe que seu filho poderia ter.
Vamos olhar juntas para tudo de bom que acontecer para nossos filhos e pensar orgulhosas que foi graças ao aleitamento livre demanda, ao sling ou a renúncia da chupeta que isso deu certo. Assim como vamos ver os momentos ruins e nos culpar pensando que foi porque não fizemos massagem shantala ou demos maçã que não era orgânica.
No fim, eles vão pagar terapia, e nós vamos estar envolvidas nisso. Freud explica. Mesmo com parto na banheira, peito o dia todo, fralda de pano…
Então vamos pelo menos ficar unidas entre a gente? Sem certeza nenhuma, mas com muita vontade de acertar?

PRIMEIRO TRIMESTRE

Temperatura subindo, 14 dias após a ovulação. Eu sabia que tínhamos vacilado. Se amanhã não abaixar, eu faço um teste.
Mais uma temperatura alta, teste comprado. Vou esperar mais um dia. Acordo de madrugada, impossível dormir. Temperatura basal: 37 graus. Ou é febre ou estou virando uma chocadeira.
Xixi no potinho. Uma listra. Dois minutos, parecem 20. Duas listras ou é sono? Duas listras. É isso. Mas pode estar errado, amanhã faço o exame de sangue, não vou preocupar o Murilo com isso.
Claro que não durmo. Laboratório abre às 6, primeira da fila, picada no braço, “boa sorte!”. Resultado só a tarde. Vou dar aula como quem não sabe o que está fazendo.
POSITIVO.
Preciso contar para o Murilo.
Viagem para a Europa que já estava marcada. Tá tudo meio esquisito. “Boa noite, zigotinho”, foi a primeira frase do Murilo como pai.
Achei que era jet lag mas era enjoo matinal. Aliás, o nome enjoo matinal deve ser porque começa de manhã e só termina quando você dorme.
Corpo fraco, cabeça ativa. Tento conversar com o zigotinho no banho, a barriga que afunda para dentro não encoraja, me sinto ridícula. Choro me achando a pior pessoa do mundo. Eu deveria estar feliz.
Vômito, voômito, fraqueza. Olhando para privada, penso: “estar grávida é horrivel”. Choro de culpa.
Decido que vou tentar curtir a gravidez e entro em mil sites.
Sangramento.
Primeiro trimestre, risco de aborto espontâneo. Lembrei de quando pensei que era horrível estar grávida e a culpa aumenta. Se eu perder, vou me sentir ainda pior.
“Você sabe como é díficil manter a primeira gravidez?” , alguém me fala, e eu fico com essa frase ecoando na cabeça.
Vou na médica, ela me abraça e me chama de flor.
“Para a natureza, você é só mais uma fêmea gravida e que vai parir”
“Me preocupo, doutora?”
“Está tudo super normal. Gestação é perder o controle”

Foram 13 semanas que pareciam 30.

Fechado para balanço

Desculpa, mas eu não ia perder a piada

Quero primeiro pedir desculpas pelo sumiço. Não é a vida de casada, ou a correria do dia-a-dia que me fez ausente daqui do blog. Foi simplesmente não saber mais o que escrever.

Esse blog nasceu numa fase turbulenta e maravilhosa da minha vida que foi a preparação do meu casamento. Eu queria só falar disso o dia todo e pensei que meus amigos já estavam de saco cheio, então decidi falar para a internet toda ouvir e quem se interessasse de verdade que se encontrasse aqui. No meio do caminho acabei falando de outras coisas também, de dança, de arte, enfim, do que cercava a minha vida.

Depois do casamento simplesmente não soube mais o que faria eu voltar aqui. Por isso estou decidindo fechar o blog por algum tempo. Quero pensar na linha que ele irá seguir de agora em diante, do que pretendo escrever e falar.

Já tenho algumas ideias, mas quero deixá-las mais concretas para que o blog tenha uma cara própria. Isso pode levar dias, meses ou anos. Mas vai acontecer. Eu não consigo ficar quieta por muito tempo.

Agradeço a presença de todos que acompanharam até agora e espero vocês no retorno!

Merci, à bientôt!