Carta para Aurora – 5 meses

A gente se entende. Pelo olhar, pela voz, pelos gestos. Sei te fazer rir, sei seu choro de sono, de tédio, de insatisfação. Sei sua música preferida, sei te fazer gargalhar. Já temos rotina, hora pra dormir, hora pra acordar. Tenho segurança para rebater os palpites porque sinto, enfim, que conheço você melhor do que ninguém.
Não consigo lembrar como era a vida antes de você. Com você a casa fica sempre cheia, movimentada, barulhenta. Completa. Olhei outro dia você dormindo junto com seu pai e os nossos gatos e pensei: agora sim, tudo certo.
Enfim senti prazer na nossa amamentação, e orgulho também. Te ver crescendo grande e saudável graças ao nosso esforço, ter esse momento só nosso. Poder te nutrir fisica e emocionalmente é uma alegria tão grande.
Esse mês foi divertido. Você aprendeu a fazer uns barulhos engraçados com a boca, a imitar nossos sons, deu muita gargalhada, faz força pra ficar em pé.
Dormiu sozinha! No seu colchãozinho, tão grandinha. Até falei pro seu pai: olha isso, parece gente. Acorda no meio da noite, brinca, rola, volta a dormir. Ás vezes não volta, mas estamos aqui pra isso. Pra te dar colo e aconchego e te mostrar que você sempre tem com quem contar.

Quando quiser voar, voa, filha, mas se quiser voltar, volta.

Carta para Aurora – 4 meses

Uau, o que foi esse mês?  Tanta coisa, tantas descobertas, tudo tão rápido.
Um belo dia tudo virou de pernas pro ar, e foi o dia em que você aprendeu a virar de barriga para baixo. Era madrugada, carnaval, e eu com seu pai acordamos com você chamando. Fomos ver e você já tinha rolado, e desde então não parou mais.
Pode parecer besteira, mas depois desse dia você virou outro bebê. Observa, interage, participa. Ri, e ri muito, de qualquer besteira que a gente faça. Adora a tomada do banheiro (vai entender), o seu reflexo no espelho, Alceu Valença e os beijos e cosquinhas que fazemos na sua barriga e pescoço.
No dia em que te ouvi gargalhar, descobri o que é felicidade de verdade.
Que mês intenso. Todas essas novidades e descobertas, e ainda a minha volta ao trabalho. Estamos tendo que aprender como viver nesses momentos separadas. Estão sendo dias tensos ainda, com muita saudade e choro. Mas tenho certeza que iremos encontrar o melhor caminho para nós duas.
Começo a entender que a gente não nasce mãe, torna-se (desculpa a paráfrase roubada, madame Beauvoir), e eu sinto que cada dia viro um pouco mais mãe e que vou aprendendo isso com você. Sinto que finalmente estamos unidas e que vamos contribuindo uma com a outra.
Esse mês foi incrível, filha. Está sendo cada dia melhor. Obrigada.

Manual (nada) prático para a maternidade

Tem que ser livre demanda, mas tem que ter rotina para dormir. Tem que ser criação com apego, mas não pode dormir ninando. Nem no peito, mas não esquece que é livre demanda.
Tem que amar a amamentação mas lembra da pega correta, de oferecer o peito em mais de uma posição. Tenta dar amor e se conectar com a criança enquanto arruma a boca de peixinho, segura a almofada de amamentação, abre a boca, puxa o queixo, enfia o peito na boca. Mas lembra do amor.
Tem que ensinar a dormir sozinho, mas não pode deixar chorando no berço. Aliás, não pode ter berço. Tem que ser cama compartilhada, mas tem que aprender a dormir sozinho. Sem chupeta, claro. E sem peito também.
O colchão tem que ser no chão. Não importa se você gosta da sua cama e do seu quarto do jeito que ele é. Não pode ter travesseiro e nem coberta perto. Vai passar frio e dormir torta.
Tem que respeitar a exterogestação, o amadurecimento do sono, mas tem que estimular. Com brinquedos montessorianos, se não vira um ser sem autonomia e sei lá mais o quê. Não pode tv, não pode ipad, não pode brinquedo com luz e de plástico. Tem que ser tudo feito em casa, de madeira, papel-machê e educativo. Tem que estar disponível a hora que quer, para brincar, dormir, mamar. Não pode delegar a criação para a tv, para o computador, a babá.
Tem que voltar a trabalhar, vai ficar sendo sustentada pelo marido? Mas não pode ir pra creche, coitado, dá um dó. Não pode babá também, tá louca, ficar com uma estranha? E com a avó fica mimado. Mas vai ficar em casa? Sabia, teve filho para ser sustentada. Voltou a trabalhar e nem pensou na criança.
Tem que dar o peito quando quer (menos pra dormir, lembra) e até quando quiser. Mesmo com as costas doendo e sem dormir há 10 anos. Quando for comer, tem que ser orgânico, natural e BLW. Tem que fazer cosplay de Bela Gil e ver a criança mandar para os ares a comida que você, que detesta cozinhar, levou 3 horas para fazer. Porque tem que deixar comer do jeito que quiser e jogar pedaço de melancia até embaixo da estante. Você não ficou em casa para cuidar dele? Então, na hora que ele dorme você cata resto de cenoura (orgânica) pela casa. Mas fica com o marido? Coitado. Tá fazendo a parte dele de cuidar dessa criança pra você trabalhar, ainda quer que cozinhe e limpe a casa.
Tem que ser fralda de pano, mas não pode deixar assar a bunda. Troca de duas em duas horas. Lembra que nesse tempo pode querer mamar. Ou brincar. Ou dormir. E a melancia ainda tá embaixo da estante. E os brinquedos montessorianos espalhados pela sala.
Tem que criar um ser com autonomia vivendo em função dele. Tem que criar com apego mas cercada de sim e nãos.
Tem que ditar regra para deixar a maternidade ainda mais difícil do que ela já é.

Para a mãe que acabou de nascer

Nasceu. E a sensação é de vazio.
Tudo bem se você não amar no primeiro instante (ou nas próximas semanas). Vocês vão se conhecer aos poucos.
Busque alguém que te apóie na amamentação. É difícil, pode doer. Você precisa de apoio.
Precisa de apoio nas noites mal dormidas, ou não dormidas. Na hora do choro do bebê e do seu choro também.
Chore.
Coloque pra fora a angústia, os medos, o desespero, a agonia, a tristeza.
Um bebê nasceu, mas morreu uma mulher. É tudo bem se você quiser vivenciar esse luto.
Cobram tanto a alegria desse momento que pode ser que você se sinta culpada por não estar radiante. E tudo bem.
Não receba visitas, se não quiser.
Ou se cerque de amigos, se sentir melhor acompanhada.
Não ligue para o que os outros falam, sobre você, seu parto, seu bebê.
Pode xingar todo mundo, bater portas, mandar a merda.
Você acabou de morrer e colocar uma vida no mundo.
Chore muito.
Aprenda a delegar.
Você não é menos mãe porque deixou de trocar uma fralda, ou porque quis dormir e deixou o bebê com alguém, ou porque não teve paciência para acalmar aquele choro.
Aliás, repita mil vezes que qualquer escolha sua não te faz menos mãe e que você é a melhor mãe que seu filho poderia ter,
Você ainda é um ser humano com vontades próprias, sentimentos próprios, emoções e caprichos. Você pode, sim, se colocar em primeiro lugar. Até porque seu filho precisa de uma mãe inteira, saudável e feliz para cuidar dele.
A maternidade não tem que ser essa vida de sacrificio e renúncias que falam para a gente.
Lembre-se que bebês choram, por tudo, por qualquer motivo, ou sem motivo também. Não é culpa sua, do seu leite, do chocolate que você comeu, ou qualquer outra coisa que inventam para jogar nas suas costas a responsabilidade.
Acredite que “vai passar”. Aquela cólica, a dor no mamilo, a falta de sono.

Eu estou escrevendo esse texto no fim do meu puerpério, porque não quero esquecer como foi difícil. Pode ser que isso aconteça e eu seja uma das pessoas que esteja te falando qualquer porcaria que não ajude no futuro. Então se eu puder dizer algo que valha realmente a pena para você é:

Chore. Você é a melhor mãe que seu filho poderia ter. Vai passar.

Carta para Aurora – 3 Meses

23/02/2017

“Neblina baixa, sol que racha”
Me disseram isso quando falei como estava difícil esses primeiros meses. Quer dizer que nos dias que amanhece com neblina, logo em seguida virá um sol brilhante. E nesse mês esse raio de sol começou a se fazer ver.
De um dia para o outro parece que as coisas ficaram mais fáceis. Talvez seja o puerpério acabando, talvez seja você se entendendo comigo e com o mundo, talvez seja porque eu estou confiando mais em mim e em você.
Nos últimos dias você passou a interagir mais. Fica mais tempo acordada, brinca, tenta pegar as coisas e conversar comigo. Aliás, não senti alegria maior na minha vida do que nos momentos em que você me olha atentamente, sorri e tenta falar. É um conforto tão grande na alma.
Agora finalmente sinto que consigo te confortar. Acho que entendi como você gosta de ser segurada, o ritmo do balanço. Ultimamente consigo te fazer dormir só cantando e te ninando, e você parece preferir minha voz do que o ruído branco que costumávamos colocar. Tem vezes que você chora e basta me ver para abrir um sorriso. E tem vezes que seu pai está tentando te acalmar e basta passar para o meu colo para você parar.
Que delícia que é, filha, ver que eu basto e sou o que você quer e precisa, e que em mim você encontra aconchego e paz. Isso me fez acreditar mais em mim e ter forças para seguir com as escolhas que eu e seu pai fizemos para sua criação.
A amamentação ainda não é perfeita, mas seguimos do nosso jeitinho. Já vejo que meu peito é mais do que alimento para você.
O mundo não parece mais um lugar tão desconfortável para você e até parece que você está curtindo esse contato com as pessoas e os lugares. Ás vezes vejo você interagindo e me dá uma tristeza de te ver crescer e realizar que daqui um tempo vai ser preciso mais do que meu colo para te deixar feliz e que nem sempre eu vou poder estar do seu lado te protegendo.
Mas tento afastar rápido esses pensamentos e acreditar que estamos fazendo o melhor para te preparar para esse mundão. Você já está se saindo super bem até agora e eu estou muito orgulhosa disso.

Carta para Aurora – 2 Meses

23/01/2017

Eu achei que seu primeiro mês era uma sensação de estar saindo de uma tsunami. Mal sabia que vinha outra em seguida.
Você agora parece entender que tem um mundo do lado de fora, e quer interagir com ele. Ás vezes solta um sorriso, mas sinto que na maior parte do tempo isso te angustia. E eu estou aqui, tentando amparar suas angustias, frustrações, cansaço, mas sem saber se estou fazendo certo.
Quantas dúvidas, filha. Quantos comentários que machucam. Pessoas que parecem me olhar e me questionar a todo momento se eu realmente sei ser boa mãe. E aí eu acabo me questionando se sou boa mãe, outros dias me questiono se sou mãe mesmo. Você me olha, mas ainda não me reconhece como seu porto-seguro, e aí eu acho que é porque eu não estou fazendo alguma coisa certo.
Me disseram que é normal, que você está se entendendo com o mundo, com você, comigo, e que meu papel é só estar aqui. Mas te ver chorar corta a alma. Eu só queria ser realmente aquele lugar de segurança e aconchego que disseram que eu seria.
Sinto que estamos caminhando em uma neblina e não consigo ver se está realmente melhorando. A amamentação tem mais dias bons que ruins, mas ainda tem momentos que quero desistir. Não tenho mais medo de você estar com fome porque está tudo certo com seu peso. Fisicamente você aparenta estar bem.
Mas e por dentro? Por que tanto choro sem motivo? Ou tem motivo e eu que não consigo ver?
Parece que você me pede algo e eu não sei o que é.
Mais uma vez sinto que preciso te pedir desculpas.

Carta para Aurora – 1 Mês

23/12/2016

Você, enfim, chegou. Seu parto foi uma tsunami que passou por mim e esse mês eu me senti assim: sabe quando você toma um caldo de uma onda sem esperar? Quando você volta para a superfície e tem aquele sentimento de medo-alívio-desespero-tranquilidade-euforia-falta-de-ar?
É tudo tão esquisito, filha. Porque eu não sei mais quem eu sou. Não sei também quem você é. E você também tentando se descobrir, me descobrir e descobrir o mundo.
Admito que foi frustrante. Me falaram que você teria necessidade de estar perto de mim, que eu seria seu conforto e acalento. Mas eu te peguei no colo tantas vezes e não consegui te entender ou te confortar. Você me olha como se eu fosse uma estranha. O que é engraçado porque estávamos juntas há 10 meses, mas você só conhecia o meu avesso.
Falando em avesso, tá tudo de pernas pro ar. A casa, a vida, o sono, eu. Não me reconheço mais. Eu sou uma estranha para mim mesma.
Esse primeiro mês doeu, filha. Doeu o corpo voltando do parto, doeu a alma ao te ver chorar e não saber o que fazer, doeu o seio avermelhado, doeu o medo de não estar te nutrindo, doeu a consciência nas noites em que passei você para o seu pai ou sua avó porque eu não sabia mais o que fazer.
Queria ter tido mais paciência, mais segurança, mais calma. Seu pai e sua avó ajudam muito, mas a presença deles meio que impede que fiquemos só nós duas. Acho que deveriamos ter chorado juntas para, assim, nos reconciliarmos.
Eu termino esse mês sentindo que faltou pedir desculpas, filha. Por não saber o que estou fazendo, por talvez não estar tentando tanto quanto eu deveria.